BRICK DE IDÉIAS

12/05/2005 21:52
Jogando xadrez

Tom Coelho



Eu contava cerca de sete anos de idade quando fui apresentado ao jogo de
xadrez por um primo mais velho. Numa infância humilde, utilizávamos um
tabuleiro de jogo de damas e adaptávamos as peças a partir de componentes de
outro jogo de tabuleiro, War. Assim, os dados viravam torres; os aviões,
cavalos; os exércitos, peões.

Já adulto, coloquei-me a refletir sobre os benefícios daquela experiência
lúdica. Esporte, para quem enxerga a dedicação e o desempenho inerentes à
prática; jogo para quem atribui o resultado da partida à sorte ou ao azar;
arte, diante da criatividade e estilo empregados. O fato é que o xadrez
certamente é responsável por aspectos de minha personalidade e conduta
profissional.

O jogo tem um objetivo muito bem definido: o "xeque-mate". Isso nos remete à
questão de se estabelecer metas - e buscar cumpri-las. Para tanto, são
necessários planejamento e estratégias definidas. E, para traçá-las,
criatividade e imaginação.
Uma partida exige concentração, o que nos proporciona desenvolvimento do
autocontrole. E sua duração tem um tempo-limite determinado. Assim,
hierarquizar tarefas e gerenciar o tempo mostram-se imprescindíveis.

Mas o melhor do xadrez está no exercício de pensar-se nos lances seguintes.
Os seus e os do adversário. Grandes enxadristas conseguem vislumbrar, a cada
nova rodada, toda uma partida. Isso demanda um raciocínio lógico e espacial
muito abrangentes. É o estímulo para o desenvolvimento da intuição e da
capacidade de antecipação, além do hábito de se visualizar o futuro. E o
esforço por elevar a performance a cada lance lembra-nos a idéia do
aperfeiçoamento contínuo, ou kaizen.

Não existe o jogo de duplas. Sob essa ótica, o xadrez é um exemplo perfeito
da solidão do poder. A autonomia para movimentar uma ou outra peça é
exclusivamente do jogador. A decisão é sua. E o resultado, vitória ou
derrota, é conseqüência direta das opções feitas. Esta é a hora de
administrar as emoções. Curtir o entusiasmo decorrente do sucesso,
sentindo-se realizado; o prazer pela conquista, o sabor da superação. Ou
tolerar o fracasso, aprendendo pacientemente com o mesmo, adotando uma
postura resiliente.

Por fim, até mesmo ética aprende-se através do xadrez. Do respeito ao
adversário, cumprimentando-o no início e término da partida, mantendo-se em
silêncio enquanto aguarda sua jogada e não trapaceando mediante alteração
das posições das peças num momento de distração do oponente, até o
cumprimento da regra "peça-tocada é peça-jogada", uma simbologia perfeita
para denotar que podemos muitas vezes utilizar Ctrl-C + Ctrl-V em nossas
atitudes, mas o Ctrl-Z não é admitido...

O profissional empreendedor deve, idealmente, aprender a ser um enxadrista,
porque nossa vida é um grande jogo de xadrez. Estamos todos no mesmo
tabuleiro e recebemos as mesmas peças. É certo que alguns são ligeiramente
favorecidos pelo destino, ficando com peças brancas e iniciando o jogo. Mas,
não raro, falta-lhes sabedoria para lidar com essa vantagem comparativa.

Estabelecer metas, planejar, traçar estratégias, administrar o tempo, tomar
decisões, ser criativo e imaginativo, compor cenários, exigir qualidade,
controlar emoções, respeitar ao próximo; essas não são apenas regras para se
vencer um jogo de xadrez; não são apenas regras para se conquistar o jogo do
mundo corporativo. São regras para alcançar-se com êxito a própria
felicidade no jogo da vida.

enviada por ZE WAS HERE






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